19 de Julho de 2013

Não esgotei na altura própria
a criança que temos de ser e de gastar.
Deve ser por isso
que eu não distingo as realidades,
que eu não vejo onde começa o impossível,
...
deve ser por isso
que eu não escolho um destino para me assentar depois
e ando a tropeçar à espera, à espera,
sem mesmo disso ter perfeita consciência...
deve ser por isso
que eu estendo a mão para um objecto
e ele está mais longe que o comprimento do meu braço.

Deve ser por isso
o meu anseio de conjunto universal,
a minha curiosidade do que se disse e se escreveu,
a desordem, gritante dentro e lenta fora, que em mim ondeia e me transporta
e eu não sei expulsar nem quero.
Deve ser por isso
que jamais lembrei o desmedido infinitamente frágil de minha alma
e que, agora, lembrado e conhecido de mim mesmo,
não hei-de ainda ter emenda...
(...)
deve ser por isso
que não consigo ser "pessoa grande"


Jorge de Sena

22 de Agosto de 2012

Alexandre O'Neill - A vida não é de abrolhos


A vida não é de abrolhos.

É de abr'olhos.

A vida não é de escolhos.
É de escolhas.

Por que me olhas e m'olhas?
Por que me forras a alma
com o relento de um sentimento?

Serei eu a tua escolha?

Abre os olhos e olha,
que eu já me escolhi em ti!

Alexandre O'Neill, Entre a Cortina e a Vidraça, 1972

11 de Junho de 2012

Após um tempo...

Após um tempo, 
Aprendemos a diferença subtil 
Entre segurar uma mão 
E acorrentar uma alma, 
E aprendemos 
Que o amor não significa deitar-se 
E uma companhia não significa segurança 
E começamos a aprender... 
Que os beijos não são contratos 
E os presentes não são promessas 
E começamos a aceitar as derrotas 
De cabeca levantada e os olhos abertos 
Aprendemos a construir 
Todos os seus caminhos de hoje, 
Porque a terra amanhã 
É demasiado incerta para planos... 
E os futuros têm um forma de ficarem 
Pela metade. 
E depois de um tempo 
Aprendemos que se for demasiado, 
Até um calorzinho do sol queima. 
Assim plantamos o nosso próprio jardim 
E decoramos a nossa própria alma, 
Em vez de esperarmos que alguém nos traga flores. 
E aprendemos que realmente podemos aguentar, 
Que somos realmente fortes, 
Que valemos realmente a pena, 
E aprendemos e aprendemos... 
E em cada dia aprendemos. 

Jorge Luís Borges